O Jogo das Cadeiras (sisterhood)

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Num dia de Outubro vou à capital fazer uma entrevista. As entrevistas não são todas iguais, e acontece o entrevistador passar a entrevistado sem saber nem como  nem porquê. São as melhores.

Estou no centro de Lisboa, devidamente atrasada, chego a uma porta, subo umas escadas, não reparo se têm corrimão mas desconfio que não, são as melhores. Lá em cima a porta está aberta, pelas janelas inclinadas entra a luz cinzenta, coada pelas nuvens esparsas do dia que voa lá fora. É um lugar despido e forte. Uma sala vazia, chão de madeira, traves descascadas a suportar um tecto distante quanto baste.

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Tati na Taschen

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Ontem teria feito 112 anos, querido Tatischeff. Tinha o Sol em Libra tout comme moi, e é possível que isso explique alguma coisa.

Este blogue chama-se Playtime for a reason. Ver Tati num cinema ao ar livre, debaixo do quarto crescente numa praça Alentejana, rodeada de velhinhos à risota e de crianças indisciplinadas foi um dos meus Jour de Fête do ano.

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Coup de Bey

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Beirute estalou no ano em que eu nasci e começou a sossegar no ano em que a minha mãe levava a minha irmã na barriga. Talvez isso explique a ligação umbilical que senti assim que pus um pé na cidade. Talvez não passe de uma coincidência forçada, engendrada para explicar o inexplicável, um amor rompante, sem aviso,  coup de foudre, coup de Bey.  É possível que para compreender uma cidade desconhecida seja preciso comê-la, mastigá-la, digeri-la nos sucos da nossa própria biografia, e assim, mesmo num plano fictício, torná-la nossa, autobiográfica.

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Nature Vive

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Olhei para estas peças de cerâmica da italiana Paola Paronetto e pensei nos quadros do Giorgio Morandi, que descobri em Paris,  não sei bem quando mas antes dos 20 certamente, pela mão do meu padrasto seguramente, quando a vida me parecia vibrante e tremenda e de uma beleza incerta e doce, exactamente como os quadros de Morandi.

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Portugal dos Pequenitos

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Aviso já que não gosto particularmente da palavra “meritocracia”. Facilmente lhe desliza o pé para o chinelo, enfim, não era minha intenção arrancar logo a matar, queria até controlar qualquer pendor elitista neste texto, mas não encontro melhor recurso expressivo (parece que é assim que se diz agora) e uma mulher não é de ferro, e um chinelo é um chinelo, neste caso poderosa sinédoque ou metonímia, já me baralhei, acho que tenho de ir ao Camões, o lírico e o outro, mas é assim, uma mulher espeta-se logo na primeira frase, porque uma mulher precisa de dizer o que pensa, como pensa.

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Ai Chico

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Na minha cabeça Chico Buarque era um músico brasileiro que tinha nascido na Holanda por acaso. Não percebia porque é que ele havia de ter nascido logo ali, num país distante e chuvoso e sombrio, se ainda por cima o seu cavalo só falava inglês.

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Activismo (Bela Moka)

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Não sei se continua acesa a discussão (?) à volta da cannabis, passa-me ao lado muita coisa – mesmo coisas por ventura bastante interessantes e importantes – e este blogue em princípio trata de temas levezinhos, nada de drogas, nem pesadas nem leves, nada de eleições, nem de cartazes obscenos a falar de “dinheiro” e “contas certas”.

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Página 99

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Entramos na gruta de Ali Babá e S. hesita uns segundos antes de descobrir o caminho que leva ao espaço das crianças. É um ninho dentro de um ninho.

Estamos na livraria Fonte de Letras, em Évora, e não sei como é que o meu filho me deixou entrar. Se calhar foi porque não parecia bem uma livraria, ou só uma livraria. Se calhar cheirou-lhe a bolinhos.

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vende que te quiero verde

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O verde vende, é óbvio. Vende que se farta – verde que te quiero verde, vende que te quiero verde, vende que te quiero vende – e basta olhar à nossa volta para perceber de que maneira o faz e como somos todos alegremente levados nessa ilusão cheia de folhinhas e rebentos e cenas renováveis.

Consumimos, consumimos, consumimos, mas porque é verde, redimimo-nos, redimimo-nos, redimimo-nos.

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Entr’acte

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Disse que voltaríamos a seguir ao intervalo, só não sabia que seria um intervalo tão longo.

Cinco meses é muita fruta, uma estação inteira, mas se a iurnata e’nu muorzo,  o Inverno é uma dentada e este já passou.

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