Snack Reads

Ando a escrever várias coisas e há uns dias numa entrevista disseram-me: “O mais importante é aquilo que podemos não estar a ver”. A entrevista não tinha, em princípio, nada de filosófico, e talvez por isso mesmo aquilo bateu-me.

O que julgamos que sabemos. Aquilo que para nós é claro. Isso é fácil. O problema (e o mais importante, talvez) é aquilo que podemos não estar a ver. 

Hoje quando o algoritmo me presenteou com a notícia (!) sobre a aliança improvável entre a Fnac e o Uber Eats, só não esfreguei os olhos porque já sei que não se faz. Em algumas coisas fico calada e sou obediente.

Mas pisquei-os várias vezes, isso sim.

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Palpite

Senhor Jaime tem uma vida tranquila.

Ele acorda sempre à mesma hora, faz sempre o mesmo café. No seu passo indeciso, desajeitado, repete a promenade matinal nos 10 metros quadrados de cozinha: do armário onde guarda a lata, ao escorredor onde repousa, de boca para baixo, a desmembrada cafeteira italiana, como um tubarão de prata.

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Chet Baker num clube em Paris viaja para trás

"Se não enfrentaste a madrugada |
com os olhos cheios de sono|
é porque não sabes o que é o amor"

cantou-me Chet ao ouvido
todo mel
caindo 
na sopa

e eu, naturalmente, acreditei.

Sentada à janela,
que se abria sobre o campo
que se abria sobre a claridade
eu ouvi muitas madrugadas.

Às vezes, no meio da bruma
das manhãs cinzentas, esverdeadas,
parecia-me ver ao longe a torre eiffel

como se fosse um mastro e eu um barco, 
eu a vigia e ela o vulcão
espetado
na minha ilha 
privada

naturalmente, era uma ilusão óptica
que acompanhava a minha ilusão óptima 
e assim sem esfregar os olhos
eu seguia
no banco de trás do autocarro,
até à próxima miragem.

(na fotografia, Chet e Halima, numa imagem querida que me acompanhou durante toda a juventude, e bem depois)

ABRAÇA A TUA MENINA, VAI

Vem daí vamos dançar. Assume o teu olhar desafiante, descabelado, inventa tudo o que possa ser inventado. Cagando para as os pratos empilhados, a loiça suja, limpa, suja outra vez. Esqueci o pó dos móveis e sacudi tudo, parti a loiça toda sim, reinventei-me.

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Despensa

Uma pessoa acorda com uma frase na cabeça e deita-se com outra, o que para alguns seria uma grandessíssima promiscuidade.

Uma pessoa pode até não acreditar no poliamor e abrir uma excepção para os livros, que devem ser muitos, múltiplos e variados.

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Chá das Cinco (Cerimónia)

Vestido preto, pele branca. Alto e pára o baile e todo o salão emudece preso naquela saia rodada, rodada, rodopiando como um pião metálico enrolado numa faixa de cetim.

O chão brilha, o tecto rompe fácil o firmamento, o lustre cambaleia como se estivesse pendurado num navio apanhado numa súbita tempestade.

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Memórias de África

(eu não tenho)

Em África, os dias começam mais cedo e assim muitas vezes às dez da manhã aquela miúda já tinha papado três pequenos-almoços completos, insulares e à inglesa, um em sua casa, outro em casa da avó, outro em casa dos tios, e assim, contente e de barriga cheia se encaminhava para casa dos padrinhos, umas ruas mais acima, onde a família em questão estava reunida à mesa ricamente disposta,

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Atrevimento

ATREVIMENTO

A grande vantagem de Eva é que invertida, ela se transforma numa Ave.
O que significa que basta querer, estalar os dedos, e pira-se. Bate as asas e põe-se a voar. Como uma fénix ardente, ou um daqueles pássaros míticos, penacho na cabeça, plumas de arco-íris, uma coisa grandiosa espampanante. Um fogo colorido rosa púrpura e amarelo atravessando as nuvens num voo sereno.
Lá de cima, no azul que nunca mais acaba, Ela vê o mundo de outra forma. O mundo sem tempo, para a frente e para trás. A eternidade.


Depois aterra e faz o pino entre as flores, caem-lhe as saias com a gravidade, tombam as parras e de novo se descobre. 

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Everlast

Ali nasceu Cassius,
tinha pé de barro, não
tinha borboletas nos pés
e vibração de abelha
na barriga.

Colosso alado, 
amado.
leve como um touro
abrindo as narinas feitas asas.

Inspirando intactos
O punho, o pó, o pé
expirando só orgulho, só beleza
para lá e para cá,
para lá e para cá.

Cassius eu te amaria
para sempre
por isso hoje vesti as minhas calças
Everlast,

E contigo tirei a máscara
e despi o escravo 
que deixou o nome
que beijou a pele
e fechou a cicatriz.

Também eu quero saber
para onde foram todos os anjos negros
onde está a farinha moída na escuridão

Beber a magia clara,
dura,
dos teus olhos
luzindo como carvão.

(não sei quem é o autor das fotografias, mas que beleza!)


      
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