Barriga

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Narizinho nasceu num dia lindo, logo pela fresca para aproveitar todas as horas que tinha pela frente nesse primeiro dia, não as 24 porque foi pelas oito que pela primeira vez viu o mundo, oito e vinte e um para ser mais precisa,

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Eclipse

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Na noite do eclipse, as palmeiras agitavam-se como belas adormecidas, negras contra a noite roxa. Era preciso dar um mergulho na escuridão.

Então entra no cinema, cheio de cadeiras vazias, e ocupa um lugar mesmo ao centro, talvez para compensar o facto de ser algo dada a extremos.

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Sorte

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Na casa havia um baloiço, preso por duas cordas debaixo de um arco ogival. A casa tinha paredes descascadas, janelas altivas, trepadeiras galgando as paredes, verdes, viçosas, por baixo a tinta rosa como champagne.

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O intruso

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Vocês ouvem alguma coisa? disse

Tratando-a com uma distância marcial, como se trata uma princesa.

Eis o teu quarto.

Toalha.

Chão.

 

E este banco japonês?

Alguém ouviu alguma coisa?

Pareceu-me ouvir, sim, sim

Mão em concha, atrás da orelha.

Não, afinal não era nada.

 

Sem pára-quedas, sem pré-aviso, tinha aterrado de rompante naquela reunião de machos. Era a única mulher. Tinham-na acolhido por compaixão. A regra era que naquele fim-de-semana selvagem, pensado ao pormenor para fazer das crianças homens, e dos homens crianças outra vez,  não eram permitidos elementos do sexo feminino. Só assim, sem fêmeas castradoras por perto, podiam fazer-se cavaleiros. Dos 7 aos 70. Livres, grandes, fortes e honrados. Homens.

Mas a mulher estava de coração partido. Fazia dó, a pobrezinha. Outro macho, um que não tinha sido convidado para o fim-de-semana, tirara-lhe o tapete de baixo dos pés. Então se é para ser assim, acabou-se. Dito e feito. E tinha acabado mesmo. A pobre chorava, arrastava-se pelos cantos, estava incapaz de cozinhar para os próprios filhos, suspirava longamente e sentia uma dor tão grande que o coração invadia o corpo todo. Doía muito. Doía horrores.

Por isso aqueles homens bondosos se tinham apiedado dela. Compassivos, tinham aberto uma excepção. Mas havia limites à varonil benevolência: só a recebiam se ela jurasse fazer como se não estivesse ali. Afinal de contas, era um intruso. Ou seja, não lhe era permitido abrir a boca, opinar, perguntar, conversar sobre coisa alguma ou participar no que quer que fosse. Durante três dias, ia dormir debaixo daquele tecto, comer aquela mesa, aquecer-se naquele fogo, mas nada mais. Nem um pio. A mulher assentiu. Era melhor passar três dias rodeada daquelas amorosas bestas, mesmo em silêncio, do que ficar sozinha no seu apartamento em Lisboa no estado em que estava.

Entrou de fininho, e durante três dias ignorou montes de roupa, pilhas de pratos, ténis fedorentos, botas lamacentas, palavrões à solta, brutalidades, obscenidades, disparates, insensatezes, atrasos, exageros, aventuras, teimosias, precipitações e outras movimentações intrépidas. Fechou a boca, e era tal a indiferença que lhe votavam, como se fosse, para além de invisível, cabalmente inexistente, que quase se esquecia do seu corpo, e mais de uma vez se beliscou para comprovar que de facto estava ali, tinha carne e osso e era mais do que um espírito à deriva. Teria entrado muda e saído calada, gozando, apesar de tudo, daquele ócio arrastado, não fosse a sensibilidade feminina traí-la. Acontecia sempre que se deixava levar pela insistente beleza do mundo.

E este banco japonês?

(robusto, enxuto, de madeira, uma trave e dois pés)

Alguém ouviu alguma coisa?

Pareceu-me ouvir, sim, sim

Mão em concha, atrás da orelha

Não, afinal não era nada.

(a encantadora figura aí em cima é da Fatima Moreno. Na minha cabeça, era exactamente assim que via a intrusa. Obrigada Fatima).

 

Tremor

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Conheci um homem que amava montanhas. Escalava-as, enfrentando perigos e acasos, e quando atingia o cume, sentava-se numa pedra mais amena e contemplava a vastidão, como se para além do espaço, tivesse todo o tempo a seus pés. Depois, pensava em regressar a casa, mesmo que no seu espírito esse espaço não tivesse contornos bem definidos ou lugar onde pousar.

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Nuvem

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Todos os dias, o Senhor Flo subia as escadas do prédio onde vivia, vários lanços em passadas alegres e confiantes, leves como assobios, e chegando ao topo, com a respiração amplamente controlada, retirava do bolso o seu cachimbo.

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Barbatana

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Melville sabia tudo sobre baleias.

A sua obsessão foi um tesouro.

Foi a partir dela que escreveu mais de 600 páginas sobre um monstro marinho que poucos homens viram de perto.

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Perto

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Era uma vez um rond-point* Milanês.

E ali havia um bar que se enchia de gente uma vez por ano. O resto do tempo era um bar de bairro, onde paravam velhos distraídos, comerciais nervosos, mulheres que pintam o cabelo, crianças birrentas a puxar as calças dos pais.

Faziam-se apéritifs democráticos.

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